Ataque econômico preventivo
José Luís Fiori*
“O imperialista, com os olhos duros e lúcidos, contempla a multidão dos povos e vê, olhando para todos eles, a sua própria nação.”
Rudolf Hilferding, O capital financeiro (1910)
Quase tudo possível já foi dito sobre a última guerra no Iraque. Foi quase um ano de preparação militar para 18 dias de guerra, e, à medida que o tempo passa, ela vai ficando cada vez mais parecida com uma guerra colonial de tipo clássico: unilateral, localizada e envolvendo duas grandes potências contra um estado periférico; fora do núcleo central do sistema mundial e apoiada por argumentos frágeis e acusações quase desnecessárias. Uma espécie de guerra de um lado só, para ocupação de um território com alta dotação de petróleo, seguida da derrubada do seu governo, como tantas outras que aconteceram, durante a segunda metade do século XIX e também durante o XX.
Apesar desse perfil clássico, a nova guerra no Iraque se transformou num verdadeiro conflito “mundial”, uma espécie de “guerra hegemônica”, envolvendo, de uma forma ou outra, todas as demais grandes potências e um número significativo de estados de segunda e terceira importância, dentro da hierarquia geopolítica mundial. Além disso, seus efeitos abalaram várias dimensões e instituições mundiais e sacudiram todos os tabuleiros geopolíticos mundiais, atingindo o próprio “círculo dos criadores da moralidade internacional” de que falava Edward Carr, no seu clássico The Twenty Years’ Crisis, 1919–1939.
Essa guerra foi uma espécie de proxi do fim Guerra Fria e da Guerra do Golfo. E, nesse sentido, faz parte de um lento processo de “rendição” dos derrotados, que não aconteceu, e de um “acordo de paz” entre os vencedores, que tampouco existiu. Houve, sim, um acordo sobre a divisão dos territórios conquistados e sobre a definição das novas regras de funcionamento do sistema político mundial. Se for assim, a nova guerra no Iraque contém vários sinais e mensagens enviados ao mundo, pela mesma coalizão anglo-americana que definiu as bases e diretrizes da ordem mundial, depois da Segunda Guerra Mundial. Quais são esses sinais e a quem são dirigidos? Levaremos ainda muito tempo para decifrá-los, mas algumas coisas já podem ser lidas e são mais urgentes.
Em primeiro lugar, não é difícil de entender a lógica da ocupação territorial americana que se iniciou depois da vitória de 1991 e culminou com a tomada de Bagdá. O movimento seguiu uma linha bastante clara: começou pelo Báltico, atravessou em paz a Europa Central, a Ucrânia e a Bielo-Rússia (hoje, Belarus), transformou-se em guerra nos Bálcãs e, depois de confirmada a aliança com a Turquia, chegou até a Ásia Central e o Paquistão, com a Guerra do Afeganistão, e até Bagdá e a Palestina, com a última guerra no Iraque. Portanto, com a exceção da Síria e do Irã, os Estados Unidos reinam hoje, soberanos, em quase todo o Rimland, a área geopolítica mais importante do mundo, para o exercício do poder global, segundo Nicholas Spykman, o grande geopolítico norte-americano, da primeira metade do século XX.
Depois da guerra, não fica difícil de ver no mapa das bases militares norte-americanas, espalhadas pelo mundo, que os Estados Unidos já construíram um “cinturão sanitário”, separando a Alemanha da Rússia, e a Rússia da China. Portanto, deixam claro que, se não acontecerem grandes novidades, os seus novos concorrentes estratégicos, além da China, seguirão sendo os mesmos da Inglaterra, desde o Congresso de Viena e, sobretudo, depois do nascimento da Alemanha, em 1871.
Desse ponto de vista, a mensagem mais importante da última guerra foi dirigida diretamente ao clube das grandes potências, onde têm assento todos os antigos aliados americanos na Guerra Fria e na Guerra do Golfo. São eles os maiores produtores de armas de destruição de massa e os principais destinatários da nova doutrina Bush, que prevê e defende ataques preventivos contra os seus detentores. Na verdade, os Estados Unidos já fizeram uso desse “direito” em inúmeras outras ocasiões, durante os séculos XIX e XX, mas quase sempre contra países pequenos ou periféricos, ou sob os auspícios da Guerra Fria. A novidade não está nesse ponto, está no anúncio claro e inequívoco de que o objetivo último da nova doutrina é impedir o aparecimento, em qualquer ponto, e por um tempo indefinido, de qualquer outra nação ou aliança de nações que rivalize com os Estados Unidos. Uma estratégia de “contenção”, como a que foi sugerida por George Kennan e adotada pelos Estados Unidos, com relação à União Soviética, depois de 1947, só que agora visando ao exercício de um poder global que envolve uma prevenção permanente e universal.
Nenhuma das grandes potências se opôs à deposição de Saddam Hussein nem a uma intervenção coletiva no Iraque. Sua oposição foi à forma unilateral que os Estados Unidos impuseram ao processo, agravando um quadro que já vem da década de 90, de distanciamento cada vez maior entre os Estados Unidos e seus dois maiores “protetorados militares”, decisivos para o sucesso econômico mundial do período após a Segunda Guerra Mundial: a Alemanha e o Japão. Não é difícil de perceber que, na década de 1980, a economia norte-americana cresceu mais do que as dos outros dois países, como acontece sempre nos períodos de preparação e escalada pré-bélica. Mas a União Soviética se dissolveu sem guerra, e, na década de 1990, a economia norte-americana seguiu crescendo, enquanto o Japão e a Alemanha afogavam-se num imenso poço de liquidez e de “imobilismo satisfeito”, desarmados que foram de seus velhos projetos nacionais. Se for assim, estaremos assistindo apenas ao início de uma nova rodada de competição e conflito dentro do clube das grandes potências.
Em segundo lugar, a recente guerra no Iraque trouxe uma mensagem muito clara para a periferia do sistema mundial, situada fora do Oriente Médio e da Ásia Central. Essa periferia compreende cerca de cem países independentes, a maioria muito pouco desenvolvida e situada na escala inferior do poder e da riqueza mundial. Mas alguns deles são maiores e têm melhores perspectivas de expansão econômica e algum tipo de projeção política regional. Quase todos eles foram colônias européias em algum momento de suas histórias, e a maioria se mantém até hoje na condição de “quase-Estados”, com soberanias extremamente limitadas pela contínua intervenção das grandes potências. Esses Estados cresceram geometricamente, depois da Segunda Guerra Mundial, sob auspícios da política competitiva dos Estados Unidos e da União Soviética, partidários da autodeterminação dos povos e do direito ao desenvolvimento econômico nacional. Durante a Guerra Fria, a competição global e bipolar entre a União Soviética e os Estados Unidos funcionou como um cinturão de segurança que foi capaz de manter a “ordem” neste universo, enquanto o socialismo e o desenvolvimentismo mantinham uma expectativa de mobilidade fundamental para legitimar o poder dos dois dentro desta galáxia de novos Estados nacionais. No fim da década de 1970, entretanto, o desenvolvimentismo já perdera fôlego na maioria dos países periféricos, e, logo depois, o socialismo também entrou em crise. Depois do fim da Guerra Fria, e durante a década de 1990, o rápido crescimento econômico norte-americano e o aumento do fluxo internacional de capitais, junto com a utopia da globalização, conseguiram manter as expectativas coletivas, contribuindo para a manutenção da ordem geral. Depois do ano 2000, entretanto, a estagnação mundial e a volta da guerra ao centro do sistema internacional, junto com o crescimento pífio dos “mercados emergentes”, recolocaram uma questão pendente, desde o fim da Guerra Fria, sobre o que as grandes potências devem fazer, neste novo milênio, com suas ex-colônias e com todos os Estados que elas “inventaram” na América, no Oriente Médio, na Ásia e na África.
A resposta já estava dada na década de 1990, mas ficou escondida pelo brilho da vitória norte-americana e pelo deslumbramento com a utopia da globalização e da “sociedade em redes”. Em 1996, o assessor internacional de Tony Blair, Richard Cooper, publicou um pequeno livro,1 no qual explica com toda clareza as diretrizes estratégicas do projeto globalitário e otimista da era Clinton–Blair. Segundo Cooper, o objetivo foi sempre o da construção de três novos tipos de “imperialismos, aceitáveis ao mundo dos direitos humanos e dos valores cosmopolitas”. Um “imperialismo cooperativo”, para o mundo das grandes potências; um “imperialismo baseado na lei das selvas”, para os “Estados pré-modernos”; e um “imperialismo voluntário da economia global”, para os “Estados que se abram e aceitem pacificamente a interferência das organizações internacionais e dos Estados estrangeiros”.
Dessa perspectiva, fica mais bem mais fácil de compreender a mensagem enviada pela última guerra no Iraque aos países periféricos: em primeiro lugar, foi uma confirmação de que os anglo-americanos estão realmente decididos a aplicar a “lei da selva”, com relação aos povos incapazes de se manter dentro das regras definidas por eles mesmos. Mas, além disso, a nova guerra traz junto, e bem empacotada, uma outra mensagem, que já foi decifrada pelo norte-americano John Mearsheimer, no seu recente Tragedy of Great Power Politics, quando diz, falando da China, que a política dos Estados Unidos na China está mal orientada., porque uma China rica não será um poder que aceite o status quo internacional. Pelo contrário, será um estado agressivo e determinado a conquistar uma hegemonia regional. Não porque a China, ao ficar rica, venha a ter instintos malvados, mas porque a melhor maneira para qualquer estado maximizar as suas perspectivas de sobrevivência é se tornar um hegemon na sua região do mundo. Agora, se é do interesse da China ser o hegemon no nordeste da Ásia, não é do interesse da América que isso aconteça.2
Eis aí uma mensagem decisiva da nova doutrina e da última guerra. A tese de Mearsheimer é sobre a China, mas deve ser lida como um novo princípio estratégico universal. Como não é possível a existência de uma verdadeira potência política sem poder econômico, a competição econômica se transforma numa prolongação da guerra e vice-versa. Nesse sentido, o primeiro ataque preventivo contra potências emergentes e bem-comportadas não deverá ser militar – será econômico e consistirá na contenção ou bloqueio do seu desenvolvimento.
* José Luís Fiori é cientista político, professor titular de Economia Política Internacional da UFRJ e da Uerj.
Notas bibliográficas:
1. COOPER, R. The Post-Modern State and the World Order. Londres: Demos, 1996.
2. MEARSHEIMER, J. The Tragedy of the Great Power Politics. Nova York: Norton & Company, 2001, p. 402.
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