
Imagens que revelam o inconsciente
Luiz Carlos Mello *
Quem visitar o Museu de Imagens do Inconsciente1 irá se confrontar com imagens inquietantes (e muitas vezes belas) que compõem o seu acervo estimado em 300 mil obras, acumuladas em seus 55 anos de existência. O museu nasceu em 1952, com a produção dos ateliês de atividades expressivas como pintura, modelagem e xilogravura. Essas obras foram estudadas em diferentes áreas, como antropologia, psicologia, psiquiatria, história da arte e religião, com o intuito de decifrar os misteriosos processos que se desdobram no interior de indivíduos que vivenciaram um profundo mergulho no inconsciente.
Inconformada com os métodos violentos de tratamento psiquiátrico em uso como eletrochoque, coma insulínico e a lobotomia, a drª Nise da Silveira encontrou na terapêutica ocupacional uma outra forma de tratamento para as pessoas esquizofrênicas. Fundou, então, em maio de 1946, o Serviço de Terapêutica Ocupacional no Centro Psiquiátrico Pedro II do Rio de Janeiro, que progressivamente atingiu 17 atividades, entre elas, sapataria, cestaria, teatro, jardinagem, música, carpintaria, encadernação e recreação.
O ateliê de pintura foi aberto em 9 de setembro de 1946. Tinha como monitor o artista Almir Mavignier, hoje pintor de renome internacional e professor de arte. Sua participação foi fundamental ao oferecer – e também ao descobrir – as melhores condições para que os internos pudessem criar livremente sem que houvesse qualquer interferência.
O Centro Psiquiátrico naquela época tinha 1.500 internos, em sua maioria esquizofrênicos crônicos que normalmente ficavam abandonados nos pátios do hospital. Nesses pátios e nas enfermarias, foi sendo descoberto (e reunido no ateliê) um grupo de esquizofrênicos cuja produção logo começou a se destacar.
As oficinas da terapêutica ocupacional foram atraindo, para seus diversos setores, pessoas abandonadas nos pátios do hospital psiquiátrico ao azar da não-ação, numa vida completamente incógnita por trás de seus uniformes. Na luta pela mudança do ambiente hospitalar, foram surgindo, quase ao mesmo tempo, seres excepcionais como Emygdio, Raphael, Adelina, Isaac, Carlos, Fernando, Abelardo, Octávio e Lúcio, possuidores de uma capacidade de expressão extraordinária.
Três meses após a inauguração do ateliê, já havia material suficiente para organizar uma pequena exposição. Assim, em 22 de dezembro de 1946, foi inaugurada no antigo Centro Psiquiátrico Nacional, atual Instituto Municipal Nise da Silveira, a primeira mostra de imagens pintadas pelos doentes. A exposição despertou grande interesse, sendo logo transferida, em fevereiro de 1947, para o edifício-sede do Ministério da Educação, localizado no Centro da cidade, possibilitando acesso ao grande público. Para surpresa da drª Nise, os psiquiatras brasileiros se interessaram menos por essa produção do que os críticos de arte e o público em geral. Escreveram sobre as obras, nos jornais da época, Antônio Bento, Rubem Navarra, Mark Berkosvitz e outros.
Entre eles, destacamos Mário Pedrosa, crítico de arte do jornal Correio da Manhã, cuja compreensão sobre o assunto aparece de forma clara e profunda.
"O artista não é aquele que sai diplomado da Escola Nacional de Belas Artes, do contrário não haveria artista entre os povos primitivos, inclusive entre os nossos índios. Uma das funções mais poderosas da arte – descoberta da psicologia moderna – é a revelação do inconsciente, e este é tão misterioso no normal como no chamado anormal. As imagens do inconsciente são apenas uma linguagem simbólica que o psiquiatra tem por dever decifrá-las. Mas ninguém impede que essas imagens e sinais sejam, além do mais, harmoniosas, sedutoras, dramáticas, vivas ou belas, enfim, constituindo em si verdadeiras obras de arte."
Engenho de Dentro
Em 1949, o crítico de arte francês Leon Degand, então diretor do Museu de Arte Moderna de São Paulo, visita, a convite de Mário Pedrosa, a seção de Terapêutica Ocupacional. Degand fica impressionado com a qualidade artística das obras, propondo, então, uma exposição para o público de São Paulo. A seleção realizada por ele e Mário Pedrosa teve como título 9 artistas de Engenho de Dentro e foi inaugurada em 12 de outubro de 1949. No prefácio do catálogo, a drª Nise afirma:
"O diretor do Museu de Arte Moderna de São Paulo visitou o estúdio de pintura e escultura do Centro Psiquiátrico do Rio e não teve dúvida em atribuir valor artístico verdadeiro a muitas das obras realizadas por homens e mulheres aí internados. Talvez esta opinião de um conhecedor de arte deixe muita gente surpreendida e perturbada. É que os loucos são considerados comumente seres embrutecidos e absurdos. Custará admitir que indivíduos assim rotulados em hospícios sejam capazes de realizar alguma coisa comparável às criações de legítimos artistas – que se afirmem justo no domínio da arte, a mais alta atividade humana."
A exposição 9 artistas de Engenho de Dentro teve enorme repercussão de público e na imprensa. Destacamos crônicas de Sérgio Milliet, Quirino da Silva, Osório Borba, Jorge de Lima e Flávio de Aquino.
Além do reconhecimento do valor artístico do acervo por artistas e especialistas em arte, o museu realizou, ao longo de seus 54 anos de existência, mais de cem exposições no Brasil e no exterior, dando maior ênfase ao aspecto científico da coleção por meio das pesquisas desenvolvidas pela drª Nise e seus colaboradores. O museu enviou representação para três congressos mundiais de psiquiatria: Paris, 1950; Zurique, 1957; e Rio de Janeiro, 1993.
As exposições sempre atraíram grande público, pelo fascínio das formas ou pela revelação do inconsciente, destacando-se Imagens do inconsciente (no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, por ocasião do centenário de C. G. Jung, em 1975), Os inumeráveis estados do ser (no Paço Imperial do Rio de Janeiro, em 1987, e em Roma, em 1996, como representante dos países de língua portuguesa, por ocasião das comemorações dos 50 anos da Organização das Nações Unidas/ONU) e Arqueologia da psique (na Casa França-Brasil, Rio de Janeiro, em 1993, e em outras capitais brasileiras). Em 2000, na Mostra do Redescobrimento no Parque Ibirapuera (SP), participamos do Módulo imagens do inconsciente, que inseriu, de forma definitiva, esses artistas dentro da história das artes brasileiras. As imagens produzidas no ateliê levantavam questões e interrogações que não encontravam resposta na formação psiquiátrica acadêmica. Essas questões impulsionaram a drª Nise para a busca de conhecimento e aprofundamento dos processos que se desdobravam no interior daqueles indivíduos, revelados por meio das imagens e símbolos. Após visita ao museu, em 1974, Ronald Laing, expoente da psiquiatria inglesa, deixou escrito que o trabalho lá realizado representa uma contribuição de grande importância para o estudo científico do processo psicótico.
Essas pesquisas, contrariamente à visão psiquiátrica predominante, nunca procuraram descobrir patologia nas produções, mas sim penetrar nas dimensões e nos mistérios dos processos do inconsciente. As imagens constituem material sadio, universal, e, muitas vezes, sua compreensão se faz por meio da pesquisa comparada com as histórias da religião, da arte, mitologia etc., numa verdadeira arqueologia da psique.
No acervo do Museu de Imagens do Inconsciente, temos centenas de exemplos desses paralelos, constituindo numa verdadeira viagem pelo tempo, desde o período neolítico, passando pela civilização egípcia, indo-persa e grega, até a alquimia na Idade Média. A emergência em nossos dias de conteúdos e símbolos, que fazem parte da história humana em diferentes épocas e locais, comprova a historicidade e a atemporalidade da psique.
Mandalas
A ferramenta principal para a prática terapêutica e a compreensão das imagens que surgiam espontaneamente nos ateliês veio por meio da psicologia junguiana. A drª Nise observou que as formas circulares ou próximas do círculo apareciam em grande quantidade na pintura das pessoas esquizofrênicas. Como interpretar esta aparente contradição: pessoas definidas como seres partidos (esquizo = cisão, phrenis = pensamento) produzindo, de forma espontânea, o símbolo universal da unidade, o círculo?
Em 1954, depois de reunir centenas dessas imagens, drª Nise escreve carta ao professor Jung, enviando fotografias e levantando questões sobre sua significação e origem. A resposta afirmativa foi imediata: eram mandalas, que representavam o potencial autocurativo existente na psique como forma de compensar a dissociação. Drª Nise viu-se diante de uma abertura nova para a compreensão da esquizofrenia. Esse encontro trouxe de forma definitiva a psicologia junguiana para o Brasil.
Como fazer essas forças curativas manifestarem-se no ambiente hostil que normalmente é o hospital psiquiátrico? Confirmava-se, mais uma vez, a importância do ambiente favorável e do afeto para que o processo de cura pudesse acontecer. Em seu espaço de trabalho, nunca houve grades, e as pessoas que o freqüentavam eram chamadas pelo nome. Era o afeto catalisador – assim chamado pelo monitor nas oficinas, como também a utilização do animal na terapia –, numa analogia à química, que assim classifica as substâncias que aceleram a velocidade das reações.
Em 1981, a doutora publicou o livro Imagens do inconsciente, traduzido para o inglês. Durante a sua produção, à medida que o trabalho evoluía, o texto era enviado juntamente com as fotografias das imagens para submetê-lo à apreciação de Marie-Louise von Franz, uma das mais importantes colaboradoras de Jung. Em quase todas as suas respostas, breves e sintéticas, vinham elogios: "É muito reconfortante saber que alguém compreendeu tão bem Jung do outro lado do mundo. E eu admiro a clareza e a coragem pela qual você diz o que deve ser dito".
Em 1956, a drª Nise fundou a Casa das Palmeiras, uma experiência piloto em psiquiatria que tem como princípio evitar o ciclo de reinternações e que é destinada ao tratamento e à reabilitação, funcionando em regime de externato. A experiência lá desenvolvida abriu portas para o surgimento de diversos tipos semelhantes de instituições, sempre em regime de externato, implantando uma nova política de saúde mental que procura evitar as onerosas e cruéis internações, colaborando para a extinção gradual das instituições asilares. Iniciativas como o Espaço Aberto ao Tempo, no Rio de Janeiro, e os Centros de Atenção Psicossocial (Caps), inicialmente organizados em Campinas, São Paulo e Santos, espalham-se pelo país.
Seu trabalho renovador na psiquiatria encontrou muitas dificuldades. Por seu espírito combatente, denunciando as formas agressivas de tratamento e internação, foi perseguida e boicotada. Por falta de recursos, muitas vezes os trabalhos no ateliê eram feitos em jornais, nos diários oficiais que pegava na administração, para que os freqüentadores não deixassem de desenvolver suas atividades. A incompreensão do seu trabalho pioneiro no uso de cães e gatos como co-terapeutas levou-a a enormes sofrimentos com o desaparecimento e o envenenamento de animais. Naquela época, manteve correspondência com pesquisadores americanos estadunidenses sobre a relação ser humano/animal. Um deles, o psicanalista estadunidense Boris Levinson, comentou sobre a morte dos animais: "Sem dúvida, para muitos desses doentes, os animais eram sua única linha de vida para a saúde mental".
O Museu de Imagens do Inconsciente encontra-se à disposição do público para visitas, estudos e pesquisas. Promove exposições em sua sede e fora dela, cursos, visitas orientadas, apresentação de vídeos e grupo de estudos. No museu, pode-se constatar a importância de Nise da Silveira, que, pelo seu trabalho revolucionário, acumulou ao longo da vida títulos e prêmios em diferentes áreas do conhecimento: saúde, educação, arte e literatura. Seu trabalho e seus princípios inspiraram a criação de museus, centros culturais e instituições psiquiátricas no Brasil e no exterior.
No dia 14 de agosto de 2003, o Conselho do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional aprovou, por unanimidade, o tombamento das principais coleções do museu.
* Luiz Carlos Mello é diretor e curador do Museu de Imagens do Inconsciente.
1. Visitação pública de segunda a sexta-feira, das 9 às 16 horas. Rua Ramiro Magalhães, 521 – Engenho de Dentro – Rio de Janeiro-RJ – CEP 20730-460. Tel./fax: (21) 2596-8460.
|