Debate sobre Olimpíadas reforça a importância da participação cidadã
Da Redação
Colaborou Fabiana Born
Dando prosseguimento a um ciclo de conversas chamado “Megaeventos: o futuro do Rio em nossas mãos", o Ibase promoveu encontro para debater as transformações pelas quais a cidade do Rio de Janeiro passará tendo em vista a realização de eventos como a Copa do Mundo, em 2014, e as Olimpíadas, em 2016. O principal objetivo é a construção de estratégias de monitoramento e participação cidadã nas decisões sobre as obras e ações previstas.
Estiveram presentes além de representantes da sociedade civil, a vereadora Andréa Gouveia Vieira, da Comissão de Orçamento, e o vereador Eliomar Coelho, da Comissão de Assuntos Urbanos. O mote da discussão foi a dificuldade de mobilizar a sociedade civil e a opinião pública para uma participação incisiva nas questões políticas que tangem a cidade do Rio e o rumo que a cidade tomará com os investimentos para a realização de grandes eventos. Além disso, foi apontada a dificuldade de comprometimento de muitos(as) vereadores(as) na hora da análise e votação de projetos importantes para o futuro da cidade.
Itamar Silva, coordenador do Ibase, relembra que, quando a cidade se candidatou em 1996 para ser sede dos jogos Olímpicos, Betinho criou um projeto chamado Agenda Social. “Contudo o Rio saiu muito rápido da disputa e não tivemos tempo de criar articulações”. Para ele, é muito importante que a sociedade acompanhe esse processo. “Seriam necessários 50 anos para redirecionar o volume de investimentos que receberemos nos próximos 10 anos, por isso, devemos aproveitar o momento para construir uma cidade mais justa.”
Cândido Grzybowski, diretor do Ibase, destaca que muitas transformações vêm sendo planejadas e postas em prática na cidade à revelia de seus(suas) moradores(as), sem ampla discussão e participação. “Ao mesmo tempo em que a Barra da Tijuca, que concentra cerca de 5% da população, recebe um investimento de R$ 30 milhões, a cidade vivencia problemas como a eterna segregação, a cidade partida -- o asfalto e a favela. O transporte está sendo pensado para a cidade ou para quem tem carro? Que oportunidades estamos perdendo para solucionar os problemas de fundo da cidade? Que cidade está sendo desenhada?”, questiona.
Para a vereadora Andréa Gouveia, a cidade não se organiza, mas reclama muito. “Sempre foram os partidos de esquerda que chamaram a atenção para os problemas, mas hoje a esquerda é o poder. Também as associações de moradores tinham esse papel, mas hoje estão mais voltadas para os interesses locais. Para a sociedade participar, terá que se organizar”, afirma. E acrescenta: “Precisamos de um tema forte para chamar a atenção da sociedade, que afete diretamente a vida da população. As Olimpíadas são esse tema. Mas só a Barra da Tijuca está discutindo, porque é a única afetada diretamente, até o momento”, constata.
Moema Miranda, coordenadora do Ibase, concorda com Andréa a respeito das mudanças da esquerda e das associações de moradores, e completa. “Acho que a esquerda mudou. As associações também. Antes a Federação das Associações de Moradores do Estado do Rio de Janeiro, Famerj, tinha mais força, olhava o todo.”
Poder público
Outro problema que apareceu com grande ênfase durante a reunião foi o deficiente papel do Estado nesse processo. A vereadora conta que em 4 de março começará a ser votado o Plano Diretor, lei municipal que estabelece diretrizes para a ocupação da cidade.
O Plano Diretor que está para ser aprovado foi criado em 1992, durante a gestão de Marcelo Alencar. Segundo Eliomar Coelho, na época foi formada uma equipe que passou cerca de um ano discutindo e fazendo audiências públicas. “Hoje, fazer apenas a revisão do Plano é impossível. Se passaram 10 anos desde a criação. A cidade já é outra. É preciso que seja feito um novo raio-x da cidade. Mas a urgência de aprovação se dá para atender as demandas das Olimpíadas.”
E Andréa chama a atenção para a atuação de muitos(as) veradores(as) na Câmara: “Estamos em uma situação bastante complicada. Não conseguimos sequer discutir o projeto. O governo tem o apoio de 40 vereadores de um total de 51. É um quadro assustador.”
Além do Plano, outro exemplo da forma como projetos vêm sendo encaminhados na Câmara, sem prévia e ampla discussão, foi a votação do Projeto de Estruturação Urbana (PEU). “O PEU das Vargens foi colocado em votação num dia e aprovado no outro”, complementa Andréa.
Eliomar defende que o atual modelo de administração da cidade privilegia políticas que deixam à margem as políticas sociais. Para Andréa, uma importante ação nesse sentido é a participação social na condução do processo financeiro para as Olimpíadas. “É importante construir um Comitê Financeiro Orçamentário para as Olimpíadas. Várias comissões do governo se propuseram a fazer, mas ninguém da sociedade civil. A cidade de Londres, sede da próxima Olimpíada, é um bom exemplo. Lá, é a sociedade quem está conduzindo o processo”.
Ainda a respeito do processo preparatório para as Olimpíadas em Londres, Renata Lins, coordenadora do Ibase, lembra que a mídia tem divulgado que tudo já está fechado com o Comitê Olímpico Internacional (COI), mas, na cidade inglesa, ainda acontecem mudanças no projeto.
Os vereadores revelam que existe um contrato entre a prefeitura e o COI, que não pode ser divulgado. “Não pode ser mudado também, mas logo depois você vê notícias de mudanças.” diz Eliomar. E Andréa complementa: “Não pode, mas pode.”
Remoção
Um grande problema para a realização das obras para as Olimpíadas é a questão dos espaços. Eliomar explica que a cidade já está estruturada e os espaços definidos. “De acordo com a necessidade, há a chamada 'gentrificação'. Uma 'limpeza social', com a expulsão 'branca' pelo poder público, e a retirada à força de quem oferecer resistência.”
Itamar lembra um exemplo prático. “A Vila Autódromo foi uma das ameaçadas por esse processo para a realização do Pan, e agora está no olho do furacão novamente. Para se ter uma cidade ideal é preciso expulsar os pobres? Como devemos nos posicionar para impedir isso?”, questiona.
A representante de Vila Autódromo, Inalva Mendes, relembra: “Nossa experiência é de exclusão. Fizemos um enfrentamento no Pan, que não foi um grande evento; mas agora estamos diante de um. Nos reunimos frequentemente com outras 30 comunidades de Jacarepaguá, Várzea e Recreio para buscar soluções. A cidade pertence aos ricos, e os pobres pagam a conta”.
A também representante de Vila Autódromo, Daniele Pinheiro, completa: “A prefeitura não quer falar em remoção, mas sabemos que já são 119 as comunidades ameaçadas, podendo chegar a 123. Os projetos idealizados pelo governo não nos agradam. A remoção traz um impacto predatório”.
Oficialmente, as comunidades só podem ser afastadas até um limite de 500 metros. Além disso, Vila Autódromo não pode ser remanejada por possuir o título de Real Direito de Uso por 99 anos.
Soluções
Mas o que pode ser feito para estimular a participação da sociedade? Como despertar seu interesse e torná-la atuante? Como congregar forças para que se obtenha os melhores resultados para o Rio de Janeiro?
Moema acredita na união das associações como um dos caminhos. “O diálogo entre as individualidades dos movimentos e associações pode ser visto como algo positivo e pode desempenhar papel aglutinador, levantando pontos comuns e promovendo a união de ações e forças”.
Outro caminho é reunir diferentes pessoas de diferentes lugares para ampliar a discussão. “Temos que juntar alguns atores dessa cidade. São muitos os interessados: arquitetos, jornalistas, donos de bares, ambientalistas etc. Temos que levar a discussão para outros ambientes e ver que tipo de processo podemos iniciar nessa cidade”, defende Itamar.
Cândido destaca a relevância da mídia: “acho que na mídia há muitos profissionais que querem ser conectados.” Para Renata, o Rio é uma cidade que atrai e encanta: “podemos usar isso, trazer gente que trabalha com a cara do Rio”.
Publicado em 26/02/2010.

*Cristina Reis* ama2345@ig.com.br Inserido em: 2010-03-09 17:32:20
Fala-se muito da questão da falta de participação das Associações de Moradores, começa que você só fica sabendo que houve algum tempo depois da realização do pleito.
Outra, não vejo nenhum parlamentar para perguntar a uma liderança de bairro o que posso fazer por você e pela sua comunidade. A maioria dos seus Projetos de Lei geralmente são contra os interesses do bairro e da comunidade.
Quanto as Federações de Associações de Moradores estão partidarizadas. Quem dita as regras são os Partidos, principalmente, dita de esquerda que só fazem filiar os novos associados no intuito de criar pelegos. As nossas discussões prioritárias ficam em último lugar. E talvez nem isso.
*Jane* janenasoli@gmail.com Inserido em: 2010-06-23 08:29:03
As políticas públicas não avançam a favor dos pobres, mas a culpa é do próprio povo que cruza os braços. Todos que militam sabem muito bem que apenas se consegue alguma coisa quando o governo é pressionado pela população. Felizmente nossos atos públicos tem sido pacíficos e conscientes. Porém não temos levado um número maior de pessoas para as ruas porque os moradores de favelas trabalham, o que quer dizer que não são vagabundos. Então cada um presente nos atos representa várias pessoas. As minhas considerações as associações, é que se os políticos nada fazem não adianta ficarem cobrando delas sem que cada um morador faça a sua parcela. Geralmente quem critica não tem a iniciativa de chegar junto nas obrigações. Com todas as tragédias que ocorreram, a Prefeitura e o Governo Estadual se omitem a assistir as reuniões convocadas pela sociedade civil organizada. É como se fôssemos lixo. Nós de várias associações de moradores temos nos reunido freqüentemente com arquitetos, urbanistas, engenheiros, defensores do Núcleo de Terras, do Ministério público e outros profissionais comprometidos com o social. Não é a por acaso que muitas remoções estão sendo estancadas. Chegam até mesmo a começar, porém temos enfrentado e aniquilado as mesmas. Se o governo não faz o social, o povo deve passar com o bonde das favelas e enfrentar as situações. O que não da certo é ficar parado vendo a banda passar sem tomar atitudes. Infelizmente ainda tem uns idiotas que se aproveitam da fraqueza dos mais humildes para fazer trabalhos paralelos paralelos tentando enfraquecer as associações. Concordo que muitas associações estão desenformadas de como agir nesses momentos de ataques dos terroristas acampados no poder podre. Mas, o papel de quem acha que sabe muito não deve ser de desestimula-las´e sim procurar ajudá-las a crescer. Uma coisa é certo, as associações e as famílias que antes trabalhavam isoladas não sabe nem como agradecer ao nosso apoio, e o grupo de apoio ganha mais uns braços para somar nos abraços sociais.
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