Rumo a 2016: que cidade vamos remodelar? Para quem?
Cândido Grzybowski*
Não há sombra de dúvida que a escolha do Rio de Janeiro para sediar os Jogos Olímpicos de 2016 nos coloca no redesenho do mapa mundi, nestes tempos de mudanças apenas esboçadas. Dois fatores chamam a atenção. As Olimpíadas serão o grande desfecho de mega eventos esportivos em série no Rio: Jogos Mundiais Militares, Copa das Confederações, Copa do Mundo de Futebol, Olimpíadas. Além do mais, a realização das Olimpíadas no Brasil, no Sul do planeta, tem um significado geopolítico que não podemos ignorar. Estamos deixando de ser “cidadãos de segunda classe” aos olhos do mundo, como bem disse o presidente Lula.
Assim, precisamos olhar a nossa cidade com carinho, ousadia e determinação, sem perda de tempo. Sou dos que pensam que temos uma grande oportunidade ao alcance das mãos para fazer face aos inadiáveis desafios para construir o Rio de Janeiro de todos(as) e para todos(as). Ao menos, podemos tentar romper com a lógica de desenvolvimento que reproduz uma cidade partida, de exclusão e segregação social, racial e ambiental. Podemos começar a superar a fratura socioterritorial, que faz com que uma parte dos(as) cariocas sejam “cidadãos de primeira classe” e a maioria, “de segunda”. Penso que são inaceitáveis os planos arquitetônicos, imobiliários, de transporte, de facilidades esportivas, que interiorizam e potencializam para a cidade, seus cidadãos e suas cidadãs, seu território, a lógica de dominação e exclusão que condenamos nas relações mundiais.
No rumo de 2016, com a formação do bloco governamental que articula esforços – governos federal, estadual e municipal –, com o montante de recursos que serão investidos, não podemos admitir que as Olimpíadas sejam meramente uma oportunidade de negócios fáceis para os de sempre. O pior será acabarmos, como em quase todas as cidades que receberam os grandes eventos, com uma bela infraestrutura esportiva que pouco ou nada serve para a própria cidade, com uma enorme dívida pública, com novas frentes de especulação imobiliária e disputa territorial entre ricos e pobres. Não podemos acabar com a cidade ainda mais fraturada, em nome das facilidades e dos grandes empreendimentos, tendo milhares de famílias removidas, sem direito à casa e à vida digna, sendo todos(as) nós agredidos em nossa cidadania.
Se isso parece abstrato, vamos a algumas evidências. Estamos remodelando a cidade só para os jogos e seus/suas visitantes/participantes? Ou, sobretudo, para quem vive aqui, para apresentarmos a nossa cidade, capaz de enfrentar suas mazelas, se refazer de dentro para enfrentar a segregação, a violência da negação dos direitos básicos, e fazer sua gente viver feliz? Por que a obsessão pela Barra da Tijuca? Por que, apressadamente, vota-se na Câmara Municipal um novo padrão de ocupação daquele território e das imensas várzeas que o embelezam? Que sentido tem ficar longe da verdadeira cidade, seu centro, seu porto, seu Maracanã, mais próximo da imensa zona norte? Por que, com o dinheiro público previsto, não integrarmos todas, absolutamente todas, as favelas, reconhecendo que favela é também cidade? Por que gastar uma fortuna de recursos públicos (e depois passar para a iniciativa privada) na construção de uma extensão do metrô que liga a rica área de Ipanema à ainda mais rica área da Barra, em vez de investir nos trens, que poderiam melhorar a vida da população da zona norte?
O risco é, mais uma vez, as mudanças serem apresentadas como o bom e o possível. Rejeito tal visão e não admito a derrota da cidadania a priori. Não basta mitigar o impacto. Precisamos, como cidadãos e cidadãs, pressionar por outro desfecho de uma história que pode, sim, ser marcante, basta agirmos unidos, desde já.
Lembro do saudoso Betinho que, em 1996, quando o Rio de Janeiro se apresentava pela primeira vez como cidade candidata aos Jogos Olímpicos de 2004, propôs as cinco metas da Agenda Social para as Olimpíadas, uma para cada cor olímpica.
Para estarmos de bem conosco, compartindo responsavelmente um maravilhoso território, recebendo esportistas e o mundo de braços abertos, sem vergonha de nossa cultura e modo de ser, de nossas praias, parques, monumentos, de nossos morros coloridos pelas favelas, de nosso jeito de construir e conviver com a mata e o mar, de nosso samba e feijoada, precisamos juntar forças e nos reinventar.
Talvez seja a hora de relançar a Ação da Cidadania, desta vez contra a exclusão e a segregação e pelo direito de todos e todas à cidade, sem discriminações. Este me parece ser o caminho para dar outro rumo ao Rio de Janeiro, chegando em 2016 com uma cidade em transformação, com sinais concretos de políticas públicas moldando a justiça social e territorial. Temos capacidade para tanto, mas precisamos criar um movimento irresistível que tome conta da cidade, que nos tire dos compartimentos e guetos em que nos refugiamos. A hora é esta.
*Sociólogo, diretor do Ibase.
Publicado em 11/11/2009

*Mercedes Duarte* duarte.mercedes@gmail.com Inserido em: 2009-11-13 09:21:53
Concordo, e não só, como entendo ser fundamental reinventarmos ativamente essa cidade. Essa, sem dúvida, é uma das melhores oportunidades. Um ponto que deve ser levantado e não podemos mais nos omitir é da vitimização que temos sofrido com as obras que vêm acontecendo pela cidade com intuito de remodelá-la para 2016. As obras do metrô é um exemplo disso. O sistema de transporte público e o trânsito, no último mês, se tornaram um caos por conta dessas obras. O trabalhador não tem mais a segurança de chegar cedo e a salvo em sua casa. A importância de termos resultados positivos com as olímpiadas e que sejam destribuídos de forma menos desigual é fundamental. Agora, é básico que durante toda essa reestruturação da cidade tenhamos garantido nosso direito básico de ir e vir sem nos matarmos durante o trajeto. Não dá pra aceitar sermos atropelados por estas obras!
*Glória Moog* gloria.moog@infolink.com.br Inserido em: 2009-11-12 15:12:54
Caso eu possa ser útil ao movimento que pretende garantir que os investimentos para as olimpíadas 2016 considerem o bem estar e promovam justiça social para toda a população fluminence, podem contar comigo.
Atenciosamente,
Glória Moog
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