É possível usar a mídia para a paz?

Ana Bittencourt

Diante da expectativa da realização da I Conferência Nacional de Segurança Pública (em agosto) e de que saia do papel a intenção do governo federal de organizar, enfim, a I Conferência Nacional de Comunicação (prometida durante o FSM 2009), um passo concreto foi dado recentemente, fortalecendo o esforço que a sociedade civil vem fazendo para intervir de forma direta no debate sobre mídia e violência. Especialistas em estudos sobre violência e profissionais de mídia das Américas se reuniram nos últimos dias 26 e 27 de março, no Rio de Janeiro, para analisar em conjunto o espinhoso tema de peito aberto, sem reservas.

Segundo dados divulgados pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Candido Mendes (Cesec/Ucam) -- responsável pela organização do evento em parceria com a Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO/UFRJ) --, 50 mil pessoas são assassinadas a cada ano no Brasil. A taxa de homicídios do país aumentou 77% em 20 anos, situando o país entre os mais violentos do mundo. As principais vítimas são homens jovens negros, moradores de favelas e periferias. Mas o que a mídia tem a ver com tudo isso?

Os dados -- publicados no livro Mídia e Violência, de Silva Ramos (entrevista em destaque) e Anabela Paiva -- foram o pano de fundo para esquentar o debate internacional, que reuniu, no campus da Praia Vermelha da UFRJ, cerca de 150 profissionais de comunicação e pesquisadores(as) do tema. Os dois dias de discussão reafirmaram a responsabilidade e o (des)compromisso da mídia na fundamentação de estereótipos e preconceitos que acirram o clima de violência entre a sociedade, principalmente nas metrópoles. Além disso, ficou latente a necessidade de mudança na forma de cobrir e divulgar esse cotidiano violento para que possamos caminhar, aos poucos, como sugeriu o jornalista Fernando Molica, de uma cobertura de polícia para uma cobertura de segurança pública no Brasil.

Para Molica, diretor da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraje) e colunista do Informe O Dia, apesar do cenário atual, houve uma melhoria nessa cobertura nas últimas cinco décadas, como aponta outro livro, este da Abraje: Cinquenta anos de crimes, com análises de 19 reportagens de 1950 a 1990.

“Antes, a sociedade aparecia na imprensa de maneira mais harmônica, equilibrada, e o crime era mostrado como um elemento externo a essa sociedade dita perfeita. Os criminosos viravam personagens, nos quais os jornais se concentravam. Ao longo do tempo, a mídia começa a falar mais fortemente de crime organizado, o jornalismo policial tradicional entra em decadência e a expressão 'direitos humanos' começa a fazer parte das coberturas”, conta ele, enfatizando como positivo o fato de a polícia não ser mais a fonte principal dos(as) jornalistas no levantamento de informações, além da própria postura crítica desses profissionais, que questionam os dados ditos 'oficiais' e buscam outros com recortes mais sociais.

Estudo realizado pelo professor do Programa de Pós-graduação da ECO/UFRJ, Paulo Vaz, a partir de reportagens do jornal O Globo (publicadas na versão impressa e na internet), mostra como a narrativa do crime afeta a sociedade, que, por sua vez, pressiona o governo exigindo, cada vez mais, a implementação de políticas públicas repressivas como solução para a violência.

“A pobreza, há algumas décadas, era apresentada na mídia como causa do crime, essa percepção mudou. Hoje, ela é um marcador de risco. A rotina segura tonou-se um valor maior e, em nome dela, limita-se a liberdade e discriminam-se certos grupos sociais”, indigna-se. Segundo o professor, nas notícias pesquisadas sobre violência, em praticamente 50%, a palavra 'tráfico' aparece associada às favelas.

Na análise da professora Ivana Bentes, diretora da ECO, o discurso de criminalização da pobreza vem sendo engendrado pela mídia pelo menos desde a década de 1920, quando se começou a relacionar favela a algo feio e à pobreza. “É possível observar nessas matérias a recorrente presença do termo 'fábrica de violência', bem como a ausência de sujeitos, como se a pobreza surgisse espontaneamente em determinado território e fosse algo ilegal e imoral”, ressalta.

Ivana enfatiza que essa mesma metáfora do pobre ameaçador está presente em filmes e novelas antigos, como “Orfeu”, de 1957, e atuais, como “Cidade de Deus”, de 2002: “Ou é a versão romantizada do pobre correto e absolutamente conformado com sua situação ou a do criminoso perigoso. São discursos opostos que convivem na mídia, passando do jornalismo para a ficção”, completou.

Mas ela também enxerga uma áurea de mudança nesse discurso, que começa a dar destaque a territórios produtivos e a apontar novos sujeitos dentro das favelas. “A favela produz linguagem, moda e signos que estão sendo incorporados no território urbano. Hoje, a moda carioca está muito pautada na periferia”, diz.

A situação vivenciada pelos(as) moradores(as) da favela Santa Marta, em Botafogo, dá uma ideia das consequências da criminalização da pobreza. Desde novembro de 2008, a região está sob ocupação da Polícia Militar, os bailes funk foram proibidos e discute-se a possibilidade de se criar um muro no seu entorno. Diante dessas mudanças, a mídia vem retratando a favela como modelo de segurança e tranquilidade. Mas o que, à primeira vista, talvez pareça positivo, pode ser só mais uma forma de reafirmar o preconceito, é o que defende o jornalista Itamar Silva, morador e liderança comunitária da região e coordenador do Ibase.

“O governador do Rio diz que vai fazer do Santa Marta um exemplo de legalidade, mas o que será preciso conter para que isso ocorra?“, questiona. Itamar lembra a nova estratégia da mídia para levar uma mensagem positiva a esse contexto de ocupação: “transmitir uma imagem da polícia negra, feminilizada, também com cara de pobre, que está atuando como pacificadora ou controladora daquele espaço”. Ele conta que dentro do Santa Marta (que os jornais insistem em intitular de 'Dona Marta', desrespeitando o histórico e a identidade locais), há grupos que vêm tentando lançar para a opinião pública um olhar mais crítico sobre essa ocupação, mas as pautas não emplacam. “Tentamos furar a mídia com outras pautas, mas qualquer crítica à ocupação é vista como aliada ao tráfico, assim a favela continua sendo vista de forma criminosa”, declara.

Itamar não acredita que a mídia, muito menos a polícia, possam um dia se tornar aliadas das favelas, já que são instituições com papéis muito definidos em nossa sociedade e compromissos claros com as elites brasileiras. Mas deposita alguma esperança nas novas mídias: “É preciso multiplicar as mídias alternativas para que as favelas sejam retratadas com todas a sua diversidade e complexidades”, finaliza.

Confira também a entrevista com a coordenadora do Cesec/Ucam, autora do livro Mídia e violência, Silva Ramos.

Publicado em 3/4/2009.



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*Nicolas*
nicolasfilipicmasso@gmail.com
Inserido em: 2009-04-08 06:16:14

Ola sou Nicolas da agencia Pressenza.

Nossa agencia esta focada nos temas da paz e a nao-violencia.

Quiseramos contatar a autora deste texto Ana Bitencourt para saber si poderiamos publicar este articulo.

Fico no aguardo

Padabens pelo trabalho

Nicolas Filipic Masso
Agencia Pressenza (IPA)


*Francilceo Castro Ramos*
leodecastroramos@yahoo.com.br
Inserido em: 2009-04-08 21:23:26

O que os meus escritos hoje propõem nesse pequeno espaço é uma simples reflexão sobre a qualidade das notas jornalísticas no que diz respeito a uma categoria que compõe o corpo social, a juventude.

Na estrutura da sociedade brasileira há três poderes e mais um, a saber, o Executivo, o legislativo, o Judiciário… e a Mídia. Dizer que esta última não produz argumentos para serem reproduzidos, assim como os outros dois, seria um equivoco.

Ao tratar a temática Violência, por exemplo, muitas são as manchetes que relatam e afirmam que a participação dos jovens está crescendo de forma absurda. No entanto, mínimas são as que revelam a vitimização desses nos fatores preponderantes, os quais, obviamente, formam essa patologia social. Nesse sentido, tais informações impostas remetem à idéia de que a nossa categoria é a principal propulsora dos atos infratores.

Segundo dados do Ilanud, dentre os crimes cometidos por jovens do Brasil, menos de 10% é considerado de caráter grave. Entretanto, esta realidade não está representada proporcionalmente nas paginas de jornais. Segundo o relatório Balas Perdidas (2001), da Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi), crimes contra a vida cometidos por jovens são 37,2% dos casos cobertos pela imprensa (Caravana Comunidade Segura 2007, p. 35). Contudo, não é o que percebemos quando a mídia apresenta esses tipos de dados.

Procuro afirmar que somos os atores responsáveis pela desmistificação desse contexto reproduzido no “senso comum”, na qual afirma que a juventude de hoje em dia “está, cada vez mais, se perdendo”. Façanha Social! Pois temos como comprovar empiricamente que muitos estão entrando, por exemplo, nas universidades, um dos meios específicos para um bem-sucedido futuro, seja através do Programa Universidade para Todos – PROUNI – ou por outras vias.

A juventude crítica, ao contrário do que esses órgãos de informações estabelecem, procura mostrar uma visão da realidade. Queremos fazer críticas sim, porém construtivas, e não afirmar as que nos enquadram em parâmetros à parte dos mecanismos de formação do país enquanto nação.

Portanto, fundamentado nessa perspectiva, não deixemos que os elementos necessários para a formação política – social – cultural sejam trazidos e/ou apresentados por veículos que não nos possibilitam ter pensamentos críticos, uma vez que substituem essa possibilidade por programas que não contribuem para tal.

Francicleo Castro Ramos

Aluno de Ciências Sociais/PUC-Rio
www.politicosocial.blog.terra.com.br