FÓRUM A TODA FORÇA

Andaram dizendo por aí que o Fórum Social Mundial (FSM) perdeu sua força. É, parece que o fato de, em janeiro de 2008, 72 países terem promovido eventos e manifestações – 19 cidades só no Brasil – pela busca de um outro mundo possível não comove certos segmentos da sociedade.

Essa "descentralização" do FSM foi uma forma de mostrar e valorizar a diversidade da sociedade no mundo. Dar mais visibilidade às questões locais e mostrar que, ainda assim, ainda que as diferenças de tradições e culturas existam, que as sociedades funcionem cada uma a seu modo, alguns elementos em comum permeiam esses grupos. Um deles é exatamente aquele que fermenta o Fórum: a contraposição ao neoliberalismo.

O FSM é um espaço para unir forças de transformação da sociedade. Hoje, vivemos em um mundo no qual o que importa é "meu pirão primeiro". Um mundo capitalista tão complicado que não respeita o que é ser humano. Tudo se transforma em "coisa vendável", o trabalho, os bens materiais e imateriais etc. E o objetivo do Fórum é transformar a sociedade dando mais sentido para as relações humanas. Construir uma sociedade planetária com cidadania de fato, o que significa a existência de igualdade nas oportunidades, respeito à diversidade e pluralidade de idéias, às questões de gênero e opção sexual, diferenças de cor, raça, credo e de localização geográfica.

Você pode estar pensando que, olhando daqui, isso tudo parece muito distante de ocorrer. Mas pode não ser bem assim. O Fórum Social Mundial teve seu primeiro encontro em 2001, em Porto Alegre, e reuniu 20 mil pessoas. Nos sete encontros mundiais, foram mais de 650 mil pessoas. Além desses, centenas de encontros locais e regionais ocorreram pelo mundo. Deve haver algo acontecendo, um desejo, uma sinalização para reunir tanta gente, não?

Nos encontros deste ano no Brasil, várias demandas, discussões e articulações importantes foram sinalizadas. Em Maricá, no estado do Rio, houve debate sobre a disputa por terras na região. Em Nova Friburgo, no mesmo estado, a discussão foi sobre a importância da água como fonte de vida. Em Fortaleza, Ceará, um cortejo organizado por mais de 40 organizações também saiu em defesa da água e da terra como direito humano de todos e todas.

Outras cidades brasileiras realizaram manifestações por um outro mundo possível. Juiz de Fora, em Minas Gerais, discutiu questões como o desmatamento na Amazônia, cenários do Brasil e da América Latina. Foi redigida a Carta de Juiz de Fora, entregue ao Comitê Internacional do FSM. Em São Paulo, foi a vez do "Sábado-feira", que reuniu mais de uma centena de instituições sociais e grupos culturais para compartilhar experiências. Reforma política, violência contra a mulher, música e teatro marcaram o evento cultural e político.

No Rio, o evento político também uniu-se ao cultural. Com o slogan "Cultura, arte e política por um outro mundo possível", o encontro Rio Com Vida reuniu cerca de 10 mil pessoas em torno de shows, passeatas e economia solidária. Em Belém, no Pará, sede do próximo encontro mundial em janeiro de 2009, além de debates, um cortejo político-cultural animou mais de 6 mil pessoas manifestantes contra o colonialismo, patriarcado, neoliberalismo, racismo, trabalho escravo e diversas outras formas de exploração.

AINDA É POUCO?

Mas ainda assim, você me pergunta: "Onde estão os resultados?". O Fórum Mundial de Educação (FME), que será realizado na Baixada Fluminense, em março (ver página 16) é um deles. O tema deste ano é "Educação cidadã", na busca para garantir os direitos sociais a todas as pessoas. No FME, uma Plataforma Mundial de Educação vem sendo elaborada a cada edição. É a defesa da educação como um direito humano fundamental e ferramenta para eliminar a pobreza e as desigualdades.

Também a economia solidária ganha força com o FSM. Hoje, o país tem uma Secretaria Nacional de Economia Solidária a partir da pressão de grupos que outrem se encontraram no Fórum, se articularam e estão se fortalecendo.

A juventude também encontrou seu caminho. Só os Acampamentos Internacionais da Juventude de todas as edições do FSM reuniram mais de 80 mil pessoas. Em 2005, por exemplo, democracia direta, gestão ambiental sustentável e novas formas de fazer política foram praticadas pelas 35 mil pessoas que lá estavam.

O FSM é um processo, o que significa que ele ocorre o tempo todo e depende de cada um(a) de nós. Você pode fazer parte dele, a partir de agora. Não precisa, necessariamente, estar em todos os eventos. Pode começar desejando um mundo mais justo, mais igualitário, onde o "outro" seja respeitado. Pode encontrar seus amigos e amigas e pensar propostas para sua escola, formar um grupo de articulação com outras escolas e propor mudanças na educação. Basta começar a construir esse outro mundo possível.

E aí, o FSM perdeu a força? Nos encontramos em Belém.

Confira alguns textos da edição:
  Capa
  Editorial
  PLANETA IBASE
  CANAL CULTURAL
  JUVENTUDES DA AMÉRICA DO SUL: ORGANIZAÇÕES, DEMANDAS E POLÍTICAS
  EXERÇA SEU DIREITO!
  FÓRUM A TODA FORÇA
  QUAL FOI?
  AGORA É QUE SÃO ELAS
  Entrevista: ReFem
  QUE MUNDO É ESTE?
  BELEZA CONTRA O PRECONCEITO
  FALA AÍ!