Uma nova esquerda também é possível
O Fórum Social Mundial é mesmo um lugar de trocas. Logo no primeiro dia, militantes de vários países estiveram reunidos para falar sobre o que significa ser de esquerda hoje. A discussão pode parecer coisa do passado, mas está mais antenada com o presente e o futuro do que se pode imaginar.
Desde o final do século XX, as formas clássicas de organização e de fazer política têm sofrido crises no que diz respeito à ação e resistência ao capitalismo. Não há, ainda, respostas para superar totalmente as crises, mas, por meio de espaços abertos de discussão e reflexão baseados no respeito à diversidade, podemos tentar encontrar a saída.
Segundo definições apresentadas por participantes do encontro promovido pelo Ibase e Instituto Rosa Luxemburgo, uma pessoa que se define de esquerda considera os seres humanos os donos do planeta, considera que a riqueza não vem apenas pelo dinheiro, considera política uma responsabilidade e não uma forma de mandar nos outros.
Para as pessoas de esquerda, pecado e vergonha é a má distribuição dos bens. Elas querem os mesmos direitos para todas as pessoas, mais eqüidade e justiça social. Ser de esquerda significa celebrar a diversidade. A experiência humana exige uma forma de fazer política diferenciada.
Talvez, por isso, a esquerda esteja sendo reconstruída. E essa é uma constatação geral. O FSM é um dos espaços importantes para que se comece a reconstrução dessa “nova esquerda”.
Rafaella Bolinni, do grupo anti-globalização italiano Arci, acredita que no FSM há pluralismo não apenas cultural e ideológico, mas geográfico. “É diferente de país para país e a combinação de diferentes movimentos de esquerda que vão da questão agrária ao feminismo podem gerar uma boa mistura.”
Essa nova esquerda que surge tem como um dos desafios se reconstruir de forma que não fale em nome de pessoas, mas lute para que elas sejam incluídas e possam tornar-se atores políticos.
O Fórum mostra que existem muitos movimentos sociais formados por atores reais, como camponeses, pescadores etc, principalmente do Sul do mundo. “Os africanos têm muito a ensinar, por exemplo, conseguem fazer educação popular sem documentos, sem papéis escritos. Usam teatro, música”, diz Rafaella. Esse é um combustível importante para a nova esquerda: “a educação popular contribui para que as pessoas possam descobrir quem são.”
Essa reconstrução não é composta apenas de ruptura. Em comum, ainda persistem desejos de um mundo de solidariedade, liberdade, fraternidade, democrático. A idéia de que o capitalismo é uma forma histórica particular e, portanto, pode ser transformada, a rejeição às concepções liberais de individualismo, por exemplo, e a confiança de que os seres humanos são capazes de transformar o mundo também servem de inspiração para a esquerda em evolução.
Mas há algumas rupturas a serem consideradas. De acordo com Edgardo Lander, da Universidade Central da Venezuela, uma dessas rupturas é a constatação de que o socialismo é uma das formas históricas de luta contra o capitalismo, não a única. “Essa idéia faz parte de um debate e de uma postura de pontos de vista dos povos indígenas da América Latina, por exemplo, por que nunca lhes significou nada, não faz parte de sua tradição cultural”, diz.
Para ele, a esquerda hoje não pode autodenominar-se progressista no sentido anteriormente conhecido: confiança em futuro, na ciência, tecnologia etc, porque a questão não é falta de progresso, mas necessidade de recuperar a memória, a comunidade, colocar a vida em primeiro plano. Ela incorpora a radicalidade e crítica feminista ao padrão patriarcal de conhecimento e das relações. “Isso significa uma alteração profunda na sociedade. A esquerda entende que a forma da dominação do poder não está localizada em nenhum lugar e não há padrão privilegiado de organização do poder, mas ocorre em todos os âmbitos: de mercado, meios de comunicação, intersubtividade, sexualidade e transformação da sociedade para a construção de outro mundo significa uma luta simultânea em todas essas frentes”, afirma ele.
Ele acredita que uma parte da esquerda entende que a construção de outro mundo possível não está no futuro. Se esse mundo não começar a ser construído hoje, um futuro melhor não será possível. “No Fórum se está aprendendo uma nova forma de fazer política que não é baseada na verdade, mas na pluralidade e interdependência humana. Esse processo de aprender coletivamente essa nova forma de fazer política faz com que, nós de esquerda, nos encontremos”, aposta.
Jamile Chequer, de Nairóbi [21/1/2007]
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