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Você já sofreu preconceito racial?
AnaCris Bittencourt*
Cerca de 200 pessoas estiveram presentes nesta quarta-feira, dia 11, ao lançamento da segunda fase da campanha Onde você guarda o seu racismo, na sede da Firjan (Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro). A campanha, implementada desde 2004, é uma iniciativa do grupo Diálogos contra o Racismo, que reúne cerca de 40 organizações da sociedade civil.
Na primeira fase, a equipe da campanha foi às ruas conhecer as várias formas de guardar o racismo entre a população branca. Nesta segunda fase, a abordagem se dá com a população negra ou com casais multirraciais que sofrem, cotidianamente, toda a violência embutida no preconceito racial, em suas várias formas. A intenção é mostrar que, longe de se tratar de casos isolados, esses depoimentos retratam como acontece o velado e demolidor racismo à brasileira.
“Mais que um convite, este lançamento é uma forma de estimular a participação da sociedade, de fortalecer o engajamento em torno do combate ao racismo no Brasil”, explicou Lúcia Xavier, da coordenação do movimento, representante da organização Criola.
Lúcia acredita que o racismo no Brasil vai além de uma atitude, trata-se de uma posição política, que precisa ser combatida. Ela avalia a campanha como um passo importante, o início de uma mobilização mais ampla em torno do tema. “Para produzirmos outro tipo de vida para a nossa população, temos que defender o sistema de cotas, buscando o fim das desigualdades provocadas pelo racismo, precisamos de responsabilidade”, defendeu.
Para Cândido Grzybowski, diretor do Ibase, o primeiro mérito da campanha foi conseguir juntar organizações da sociedade civil que não necessariamente focavam o tema racial como central em sua atuação. “Foram as organizações do movimento negro que proporcionaram essa mudança. Isso é resultado de um enorme processo de diálogo que começou antes mesmo de Durban”, explicou o sociólogo.
Cândido comparou o racismo à brasileira aos fundamentalismos religiosos existentes em outros países pelo fato de ser algo impregnado na vida da população: “quando falamos de fundamentalismo estamos nos referindo a tudo que envolve uma profunda crença, algo que foge da racionalidade, não tem a ver apenas com religião. Por isso, aqui no Brasil, tão poucas pessoas admitem ser racistas, mas se traem nos gestos, olhares, nas atitudes”, observou.
O representante da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), Antônio da Silva Pinto, celebrou o fato de que, pela primeira vez na história política brasileira, a temática racial passa a ser considerada. Mas lamentou o fato de essa vitória ter demorado tanto e lembrou o período em que apenas a população negra abordava o assunto, sendo considerada, muitas vezes, fora da realidade.
Antônio ressaltou a importância de utilizar a mídia como uma ferramenta poderosa para eliminar o racismo da sociedade, como a campanha vem fazendo. Mas fez críticas à atuação da grande imprensa, que, muitas vezes, faz justamente o inverso. “Tem muito articulista que continua considerando o Brasil a terra da democracia racial. Se compararmos argumentos defendidos por escravocratas e aqueles defendidos pela mídia, veremos que o discurso é o mesmo. Por exemplo, nos últimos meses, alguns jornais estão divulgando que o atual governo quer instalar aqui uma guerra racial, um argumento tipicamente escravocrata”, indignou-se.
Emoção e dor
A publicitária Nádia Rebouças, produtora da campanha, apresentou os novos vídeos. Ela comentou sobre o papel de transformação social da comunicação e da falta de investimentos em campanhas desse tipo no Brasil, explicando que a iniciativa foi toda feita com trabalho voluntário: “gastam-se milhões para veicular campanhas que não levam a população a refletir, a ser autônoma, a buscar uma nova atitude. Só vamos mudar o Brasil quando tivermos o poder de usar a comunicação, e esse poder, infelizmente, ainda está muito distante da sociedade civil”, enfatizou.
Depois da exibição, foi formada uma nova mesa, com pessoas que deram seus depoimentos nesta segunda fase, mediada pela jornalista Miriam Leitão, em um primeiro momento, e pela diretora da Action Aid Brasil, Rosana Heringer, na segunda parte. O debate foi rico em informações e emocionante pela coragem de trazer à tona outros casos de preconceito racial.
Miriam Leitão destacou que o impacto da campanha está, principalmente, no fato de abordar casos concretos, “vai onde dói mais” e deu exemplos do racismo na mídia, incluindo o próprio jornal onde trabalha. Na sua opinião, o racismo no país é competente no que tem de pior pelo fato de ser tão dissimulado. “Assim como acontece com integrantes dos Alcoólatras Anônimos, o Brasil deveria se olhar no espelho e dizer – ´Boa noite, meu nome é Brasil, sou racista e hoje não discriminei ninguém´”.
A empregada doméstica Luzia de Cássia que, no vídeo, conta como foi discriminada pela polícia, trouxe também casos de preconceito que sofreu com uma vendedora de loja e uma médica. “A vendedora disse na porta da loja – ´aqui não tem nada para você´. No caso da médica, ela teve outra reação: “fui a uma dermatologista, ela não quis tocar em mim, me atendeu de longe. Pensei que isso não existisse mais. Fiquei triste, mas não desisti, procurei outro médico”, relatou.
Um dos depoimentos mais fortes do vídeo foi o de Ana Carolina, produtora de moda, jovem branca, que namora um modelo fotográfico negro. No vídeo, ela relata o preconceito sofrido pelo afilhado do casal, de apenas 3 anos, em uma festa infantil. Durante o debate, Carolina falou principalmente da dor que envolve tanto preconceito.
“Cada vez que assisto ao vídeo, tenho vontade de chorar, e choro mesmo. Outro dia, meu afilhado, que hoje está com 6 anos, perguntou para mim se ele se parecia com um macaco. Perguntei: Por quê? Porque tem um colega da escola que só me chama de macaco. O que a gente pode fazer diante de tanta agressividade e dor?”, questionou.
Um outro episódio aconteceu com ela e o namorado enquanto faziam compras em um shopping da Zona Sul: “estava no trocador e ele aguardava em um sofá, ao lado de um senhor branco. Quando saímos, os seguranças do shopping nos abordaram. A esposa daquele senhor estava acusando meu namorado de ter roubado sua bolsa. Perguntamos: por que essa acusação? Ele respondeu: ´porque só pode ter sido ele´. O caso acabou na delegacia, mas não pudemos processá-los porque o racismo foi de forma velada”, contou.
No vídeo, a professora Rose-Marie conta que não era reconhecida por pais e mães de estudantes por ser negra. Professora de uma escola dentro da comunidade Pavão-Pavãozinho, ela diz, com alegria, que a situação mudou: “Hoje me reconhecem, pois depende de mim também essa mudança. Antes eu só chorava, agora fico triste, mas me sinto mais forte. Como diretora pedagógica, tenho conseguido incluir o tema do racismo em nosso currículo, pais e mães me procuram para pedir orientações e isso é muito bom”.
O advogado Humberto Adami, que também participa do vídeo, comentou sobre a importância da campanha e da sua relação com o Balanço Social – iniciativa do Ibase que estimula a publicação de um relatório social anual por parte do empresariado. “Além de trazer à tona o racismo individual, a campanha torna visível também o racismo estrutural, que existe dentro das empresas e do Judiciário. Nesse sentido, a iniciativa do Balanço Social ajuda a revelar um país que guarda o seu racismo nas empresas.”
Rosana Heringer finalizou o evento fazendo um alerta: “mais do que nunca, é importante discutirmos o racismo, pois, com as políticas de ação afirmativa, as pessoas negras vão estar muito mais presentes em lugares como a universidade e os casos de racismo podem aumentar. As pessoas acham que elas não deveriam estar ali. Temos que pensar em estratégias para combater essa situação.” Ela informou que os vídeos serão veiculados nos próximos 15 dias pela Rede Globo, pela TV Educativa e por rádios comerciais e comunitárias e fez um apelo para que outras emissoras também façam essa divulgação.
Publicado em 12/05/2006.
*Edna Maciel* ednajmaciel@yahoo.com.br Inserido em: 2006-05-17 14:34:18
Tenho 42 anos e apenas uma vez senti na pele (literalmente), o que é este sentimento secular contra nós e nossos descendentes.Estava num shopping na fila de um orelhão e como a senhora que estava ocupando o telefone demorava, pedi que por favor deixasse eu ligar.Pra resumir me chamou de motorista de fogão dizendo que irira usar os 30 créditos que possuia, quando falei do crime de racismo sorriu, perguntou quem seria ali minha testemunha e me deu uma "carteirada" declarando fazer parte da Polícia Federal.Confesso que fiquei sem ação mesmo sendo uma pessoa esclarecida sobre o assunto e fazendo parte da Imprensa local, quando dei por mim a mulher tinha ido embora.
Foi num dos shoppings onde moro no Piauí.Hoje afirmo que minha reação seria outra, chamando logo o gerente e acionando a Imprensa.
Um abraço e parabéns pelo trabalho de vocês!
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