Projeto Nacional
de Desenvolvimento e o BNDES

Por que fazer monitoramento social
do BNDES?
É urgente um
diálogo entre organizações da sociedade civil e o BNDES.
É comum ouvirmos a crítica de que o S
do BNDES é figurativo, já que está longe de chegar a 10% do desembolso
total do Banco. Só que a dimensão social do BNDES precisa extrapolar a
área destinada à realização de projetos sociais e necessita estar
presente em cada projeto de investimento, como estratégia para induzir
a diminuição das desigualdades de toda ordem. Por entendermos que o
alcance e o impacto dos empréstimos do BNDES vão além de seus
beneficiários diretos, atingindo positiva e negativamente a sociedade
como um todo, acreditamos que a construção de espaços institucionais
de interlocução entre a sociedade civil e o Banco, para discutir as
prioridades e diretrizes, é fundamental. Somente um diálogo franco e
público com essas organizações da sociedade civil, que expressem o
avanço político da sociedade brasileira nas últimas décadas, poderá
levar o S da sigla do Banco a verdadeiramente traduzir a dimensão
social que precisam ter quaisquer financiamentos de empresas públicas
no século 21.
Não faltam oportunidades e razões
para esse diálogo. Se até hoje o Banco relacionou-se apenas com o
setor produtivo, cabe agora um repensar a sua atuação e reconhecer que
o desenvolvimento só tem sentido caso sirva para radicalizar a
cidadania e distribuir, entre todos os cidadãos e cidadãs, as benesses
do desenvolvimento.
Organizações da sociedade vêm
trabalhando na condução de projetos que visam à superação das
desigualdades étnicas e de gênero, valorizando culturas locais e o
meio ambiente impactados pelo crescimentismo. Elas precisam ser
ouvidas de forma a contribuir para a definição das macrodiretrizes do
BNDES. A capacidade técnica e o olhar crítico das organizações da
sociedade podem ajudar o Banco a integrar os novos valores sociais à
sua prática, sem pretender inviabilizar a produtividade e a agilidade
da empresa.
Chegou o momento histórico de o BNDES
usar a competência técnica de seus quadros e o raio de manobra que
inegavelmente possui para demonstrar a mesma dedicação, no que se
refere ao desenvolvimento com democracia, para estimular uma cultura
de direitos sociais. Com isso, ampliaria o leque de aliados do Banco
na luta contra os que defendem a privatização dos recursos do FAT,
que, uma vez levada a termo, será o início do desmantelamento do
principal agente do financiamento do desenvolvimento econômico e
social da nação brasileira. A luta da sociedade civil por maior
transparência e melhor utilização dos recursos públicos vai na direção
oposta dos privatistas. Defende o crédito subsidiado e direcionado
para a promoção de um projeto de desenvolvimento inclusivo e
democrático.
Nesse sentido, o acompanhamento
social do BNDES deve ser feito à luz do debate sobre projetos de
desenvolvimento, para que seja explicitada a incoerência de
estratégias de desenvolvimento apoiadas em propostas/projetos que
violam direitos fundamentais de amplos setores da população, sendo,
portanto, veículo do retrocesso da própria democracia.
A construção de uma política de divulgação de informações ao público,
a criação de canais de diálogo com a sociedade civil e o
desenvolvimento de indicadores de desempenho que façam uma radiografia
mais apurada do direcionamento dos seus recursos são instrumentos
fundamentais para dar início ao processo de abertura e arejamento do
BNDES.
Publicada na
edição de 14.07.2005
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