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Transformações - "Para nascer um novo Brasil, humano, solidário, democrático, é fundamental que uma nova cultura se estabeleça, que uma nova economia se implante e que um novo poder expresse a sociedade democrática e a democracia no Estado."

Betinho e a
luta cidadã


A trajetória de militância de Betinho vem da adolescência, a partir do contato que travou com padres dominicanos que exerceram grande influência na Ação Católica e na JEC (Juventude Estudantil Católica), em Belo Horizonte.

A JEC se politizou, transformando-se na JUC (Juventude Universitária Católica). Então, Betinho começou a viajar pelo Brasil com o Centro Popular de Cultura, o CPC da UNE (União Nacional dos Estudantes). Convocou assembléias estudantis em faculdades e disputou a direção da entidade com a Ação Popular (AP) que, na época, dominava o movimento estudantil.

Na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), fez parte do núcleo que gerou o pensamento político da JUC e depois o da AP, articulando-se posteriormente com o grupo de cristãos progressistas da PUC-Rio. Desde então, ficaram claros os princípios que marcariam o seu discurso e as suas ações.

Em 1962, formado em Sociologia, engajou-se nos movimentos operários e na luta pelas chamadas reformas de base que marcaram o governo João Goulart. Ao mesmo tempo, exerceu funções de coordenação e assessoria no Ministério da Educação e Cultura – onde fez articulações a favor do projeto de alfabetização de adultos do então jovem professor pernambucano Paulo Freire – e na Superintendência de Reforma Agrária. Além disso, elaborou estudos sobre a estrutura social brasileira para a Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), da ONU.

Exílio

Depois do golpe de 1964, quando a tendência de formação de grupos guerrilheiros começou a se definir, a AP redirecionou-se para o movimento sindical e para o trabalho com grupos sociais (mulher, jovens etc). Quanto a Betinho, passou a atuar na resistência à ditadura militar. Em 1971, quando a repressão intensificou-se, o procuradíssimo líder da AP partiu para o exílio.

Morou primeiro no Chile, onde viviam cerca de 5 mil brasileiros e brasileiras articulados em mais de 40 grupos de esquerda. Deu aulas na Faculdad Latinoamericana de Ciencias Sociales, em Santiago, e atuou como assessor do presidente Allende, deposto em 1973 pelo general Augusto Pinochet com apoio da CIA.

Conseguiu escapar do sangrento golpe asilando-se na embaixada do Panamá. Em 1974, já vivendo um processo de desengajamento da AP, foi para o Canadá e depois para o México, onde fez o curso de doutorado e deu novo rumo à sua história pessoal.

Durante o exílio, exerceu cargos de direção e consultoria em organizações como o Conselho Latinoamericano de Pesquisa para a Paz (Ipra), a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) e o Latin American Research Unit (Laru).

Pré-Ibase

Nesse mesmo país, participou da criação do Centro de Estudos Latinoamericanos, que produzia análises sobre a América Latina veiculadas em diversas publicações e até em audiovisuais. Era uma espécie de pré-Ibase, como gostava de dizer, comparando com o instituto que iria fundar com o amigo Carlos Afonso, dois anos depois de voltar ao Brasil.

No final dos anos 1970, com o aumento das pressões para a abertura política no Brasil, o nome do irmão do Henfil tornou-se um dos símbolos da campanha pelo retorno dos cassados e exilados políticos, celebrizado nos versos de O Bêbado e o equilibrista.

Em 1979, com a anistia, voltou ao país. Betinho trouxe do exterior a experiência de um novo modo de organização da sociedade civil que não passava pelos partidos políticos e pelos sindicatos.

No início dos anos 1980, ajudou a fundar o Instituto de Estudos da Religião (Iser) e logo depois o Ibase – instituição de caráter suprapartidário e supra-religioso dedicada a democratizar a informação sobre as realidades econômicas, políticas e sociais no Brasil.

Desde então passou a recusar qualquer enquadramento no tradicional mundo da política, mesmo no campo da esquerda.

Frentes de luta

Betinho desempenhou papel decisivo como fundador e principal articulador da Campanha Nacional pela Reforma Agrária, congregando entidades de trabalhadores(as) rurais em busca de uma solução para a grave questão da distribuição, posse e uso da terra, um dos principais problemas estruturais dos países em desenvolvimento. Na luta pela democratização da terra organizou, em 1990, o movimento Terra e Democracia, que levou ao Aterro do Flamengo milhares de pessoas.

Betinho soube que havia contraído o vírus HIV numa das transfusões de sangue que precisava fazer periodicamente, em função da hemofilia, em 1985. A inevitabilidade da doença sem cura o estimulou a abrir uma nova frente de luta.

Em 1986, ajudou a fundar a Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia), uma das primeiras e mais influentes instituições do país nessa área, da qual foi presidente durante 11 anos.

Em 1992, integrou a liderança do Movimento Pela Ética na Política, que culminou no impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello, em setembro do mesmo ano, e serviu de base para a maior mobilização da sociedade brasileira em favor das populações excluídas: a Ação da Cidadania Contra a Miséria e Pela Vida.

Mostrou-se também um especialista no trato com a mídia, deixando suas idéias registradas em inúmeras entrevistas. Não foi por acaso que foi escolhido o Homem de Idéias 1993 pelo suplemento cultural do Jornal do Brasil.

Betinho morreu aos 61 anos em sua casa, no bairro do Botafogo, Zona Sul do Rio de Janeiro, em 9 de agosto de 1997, um sábado à noite, cercado por amigos e parentes.

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